365 Fases de um Ano by Matt Brito
Quando de fato percebi que estava apaixonado já não era racionalmente possível medir os efeitos desse sentimento em mim porque uma parte em mim já não era minha. As cores exalavam aromas, confundiam os sentidos, administravam as vozes apaixonadas que assobiam baixo no ouvido da alma, eu não havia contado a ela, ou melhor eu não considerava que havia contado tudo da forma como ela merecia ouvir, ou como minha ansiedade gritava para ser. Engraçado o amor, é indiferente a ocasiões, é impetuoso ao ponto de negligenciar quaisquer sutilezas, é hábil na arte de tornar tudo mais otimista, é extremamente perigoso pois embaça os limites aos olhos.
Era uma bela manhã de outono quando a conheci, não, espera... não vou romantizar a história, vou descrever como realmente aconteceu. Havia acordado, leia-se aberto os olhos e feito todos os rituais automáticos do dia dia, na rua as multidões marchavam rumo aos seus objetivos, uns tinham os olhos fixados nas redes sociais exibidas na tela de seus aparelhos, enquanto outros carregam um semblante fechado. Eu só pensava na possibilidade de ir sentado na condução lotada, e que os céus estivessem mentido sobre a possibilidade de chover.
Minha sorte estava dividida, dos dois desejos só tive um realizado, estava sentado na condução, mas a chuva já estava caindo, mais agradável que o som da chuva era ela escorrendo no vidro do ônibus, uma bela desculpa para ficar olhando para o nada, enquanto se pensa em tudo. Entre as contas que seriam quitadas, e o pensamento ansioso de querer usar o dinheiro extra, eu mal percebi que o meu ponto seria o próximo. Ao descer não me incomodei com a fina chuva, mas um vulto com um perfume maravilhoso tocou meu ombro, o guarda chuva amarelo protegia uma bela mulher da chuva, que apressada quase não percebeu minha presença até que quase me derrubasse, porém eu me salvei a tempo, já ela caiu de lado preocupada em me acertar com as pontas de seu guarda chuva. Ela estava sem graça pela situação, mas por Deus; eu já não sentia nada ao meu redor, aquele olhar me nocauteou, pode ter sido ela que levou o tombo, mas fui eu que tomei uma pancada.
Fomos para debaixo de uma árvore, ela estava indo para uma entrevista de emprego, nervosa chegou a chorar, aquela manhã estava sendo péssima para ela, tocamos nomes, trocamos números, e eu resolvi trocar uma boa ação por um atraso no serviço. Acompanhei ela até o local da entrevista, conversei cuidadosamente com a responsável pelo Rh que a entrevistaria e a mesma foi muito gentil em mudar a entrevista para o outro dia no mesmo horário.
Boa ação realizada, eu não poderia me atrasar mais do que já estava, mas deixei claro que havia gostado muito de ter esbarrado com ela naquela manhã. No serviço o pensamento continuava preso a ela, precisamente naquele sorriso sem igual, trocamos mensagens durante a tarde e eu me sentia um adolescente bobo sorrindo a cada mensagem trivial que trocávamos. Quando fui para a casa, já de noite, me sentei na varanda e continuei trocando mensagens, só quando o celular avisou que iria descarregar pude perceber que já eram 23:00 horas, eu nem havia entrado em casa ainda e a chuva continuava a cair, enquanto eu só pensava numa desculpa para ver outra vez aquele sorriso. Foi difícil segurar a vontade de telefonar, foi difícil quando pus os pés no chão para assumir que talvez ela já tivesse até alguém na vida dela, e que aquele dia poderia ter sido apenas mais um como tantos outros... como eu disse; eu estava mesmo como um adolescente bobo, ou apaixonado, se é que há diferenças significativas entre tais coisas.
>>> Continua...
BRITO M.
