segunda-feira, 21 de março de 2016

O Pianista (2002)

dirigido por Roman Polanski

Sinopse: O pianista polonês Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) interpretava peças clássicas em uma rádio de Varsóvia quando as primeiras bombas caíram sobre a cidade, em 1939. Com a invasão alemã e o início da 2ª Guerra Mundial, começaram também restrições aos judeus poloneses pelos nazistas. Inspirado nas memórias do pianista, o filme mostra o surgimento do Gueto de Varsóvia, quando os alemães construíram muros para encerrar os judeus em algumas áreas, e acompanha a perseguição que levou à captura e envio da família de Szpilman para os campos de concentração. Wladyslaw é o único que consegue fugir e é obrigado a se refugiar em prédios abandonados espalhados pela cidade, até que o pesadelo da guerra acabe.

Trailer


    Este filme é a obra prima dos filmes de guerra que buscam enfatizar o drama causado por ela, e mostrar como os humanos podem se tornar completamente demoníacos pelos mais tolos motivos. Ao meu ver não há exageros no drama, tudo está ali na medida certa e a angústia vai tomando conta de nossos corações, principalmente por serem fatos reais. Hitler é uma página coberta de sangue na história dos judeus e de boa parte do mundo, é claro. Nesta obra, Polanski trata de transformar as lembranças de Wladyslaw Szpilman contidas em seu livro lançado em 1945 mas que sob forte censura daquelas décadas, só se tornou de conhecimento internacional na sua reedição em 1998. A narrativa é suave e muitas cenas não possuem falas e não precisam, porque são de uma representação dramática surpreendente. A perspectiva da narrativa é perfeita porque sentimos a confusão de informação que os judeus sentiram, não havia certeza sobre o que estava acontecendo, e depois que aconteceu não tinham certeza do porquê estava acontecendo. 
     É de conhecimento global as atrocidades da segunda guerra mundial mas o filme busca mais do que horrorizar com gore, ele busca impactar sentimentalmente mostrando a destruição de uma família pelo medo, pela dor e pela separação. Desta forma nos esquecemos um pouco das centenas de filmes que retrataram a história de soldados que se tornaram heróis para lembrarmos de como civis são impotentes frente a guerra. Aliás nós repensamos o conceito de guerra reduzindo-o a um ponto onde assumimos que guerra é entre duas forças que tem armas para lutar, entre civis e uma força armada não se caracteriza guerra mas sim extermínio, covardia, holocausto... 

    No caso dos judeus nem é preciso comentar que foram um caso a parte da destruição que a guerra trás para os civis por terem sido vítimas diretas, intencionalmente atacados e massacrados. O filme tem ritmo lento sem ser chato ou enjoativo, e conta com boas interpretações de uma forma geral, a história é muito bem ajustada com a fotografia, e o posicionamento das câmeras das cenas carregam certa naturalidade no ponto de vista do personagem, afinal às vezes só podemos ver algo mas devido a distância não ouvimos, e às vezes ouvimos sem podermos ver, esse suspense deixa algumas cenas mais emocionantes do que seriam se víssemos a totalidade das mesmas. Lá perto do fim o filme nos traz uma perspectiva do início da derrota alemã por um ângulo interno, e o desfecho da história emociona por toda a trajetória de Szpilman até ali. Se pensarmos que todo o drama narrado foi sob a perspectiva de um homem, de uma família que sofreu, ficamos a pensar sobre as milhões de famílias massacradas e a situação dramáticas daqueles que foram seus últimos membros depois de terem visto, impotentes pelo medo e pela fraqueza, seus entes queridos sendo punidos sem motivo algum. Um grande filme com uma história emocionalmente, vale a pena assistir, e se possível ler o livro também.

domingo, 20 de março de 2016

Mangá: Claymore

criado por Norihiro Yagi
   Sinopse: A história se passa em um mundo fictício semelhante à era medieval europeia, que consiste num único continente dividido em 47 regiões. Nesse mundo, seres-humanos coexistem com criaturas chamadas Youma, monstros que se alimentam de vísceras humanas. Youmas são capazes de adquirir a forma de suas vítimas, absorvendo as memórias e personalidade de sua presa, permitindo que eles enganem amigos e familiares e se infiltrem nas vilas para se alimentar sem levantar suspeitas para si. Devido à situação, uma organização sem nome e altamente secreta criou uma ordem de guerreiras modificadas com o objetivo de proteger os humanos. Estas vieram a ser chamadas popularmente de Claymores, devido as imensas espadas claymore que portam. Comumente, as vilas sob ataque de Youmas contratam seus serviços para eliminar as criaturas.



   Claymore é aquela obra que basta lermos um capítulo e já era, já estamos colocando wallpaper da obra no nosso pc. Cheio de mulheres lindas e poderosas, o mangá deixa de lado o protagonismo masculino que predomina nas obras de animes/mangás/HQ´s em geral. A história tem um ritmo suave, sem muitas questões sobre o que pensar e nos entregando a mesma quantidade de informações que o personagem absorve, o que é muito legal e nos deixa mais empolgados. A trama gira em torno de Claire que sentiu ainda criança o inferno causado pelos Youmas, ela é salva por uma Claymore, a número 1 de sua época, Teresa do Sorriso Aparente. Cada guerreira recebe um número que em teoria é referência a sua força, e são divididas pelas 47 áreas do continente, a mais fraca é a número 47 e a mais forte é a número 1, sendo que dependendo da guerreira a diferença de uma guerreira de dígito único pode ser imensa mesmo para a mais próxima de seu número. Acompanhamos Claire como uma poderosa Claymore que acaba acolhendo, inicialmente contra a sua vontade, Raki, um jovem que ela havia salvado, uma situação parecida com que teve com Teresa anos antes. 

   Claire não foi só salva por Teresa como também teve seu sangue fundido ao seu corpo após sua morte violenta pelas mãos da número 2 da mesma época, Priscila, uma Claymore muito jovem que demonstrou um imenso Yoki que mal pôde conter e acabou despertando após ultrapassar seu limite de uso de poder. Com o objetivo de ter Teresa dentro de si, Clare procura um homem da Organização decidindo se tornar uma guerreira com o desejo pessoal de se tornar forte o bastante para matar Priscila, agora um Ser Desperto, denominação dada a Claymores excepcionais que acabam despertando a totalidade de seus poderes. Por serem híbridos de seres humanos com Youmas, as Claymores possuem uma limitação no uso de seus poderes, ao ultrapassá-la se torna difícil manter a consciência e uma sensação prazerosa, semelhante ao orgasmo sexual segundo a própria obra, toma conta dos 5 sentidos fazendo a transformação ser quase inevitável.

   Claire passa por muitas aventuras, criando vínculos com guerreiras que foram cruzando seu caminho durante a história, ela acaba fazendo parte de uma tentativa de golpe por parte das Claymores contra a Organização. A conspiração surgiu por Mirian, número 6 da época de Claire, a primeira a teorizar e sustentar suspeitas para com a Organização. Durante um período de 7 anos Claire fica separada de Raki, e seus interesses amadurecem dando início a um interesse mais amoroso e menos fraternal. Esses 7 anos foram cruciais na série para que uma nova geração de Claymores surgisse o que trouxe mais fôlego para a trama que começava a se tornar mais previsível. O confronto de uma geração que buscava destruir a Organização, e por uma disposta a lutar pela Organização, trouxe novos elementos e novas revelações obscuras sobre as verdadeiras intenções da Organização.

   O desfecho da história, e os arcos extraordinários de algumas personagens são as maiores glórias da obra, contudo há repetições de promessas que cansam o leitor, e discursos que parecem ter sidos inseridos só pra fazerem volume na obra, já que não se caracterizam com outros momentos da história e deixam a leitura cansativa e por vezes previsível. Um pouco de mistério é sempre bom para não encerrar definitivamente uma obra tão extensa quanto Claymore, mas algumas pontas soltas desapontam fãs mais exigentes que esperavam um pouquinho mais do desfecho. Tirando essas infelicidades do roteiro, Claymore merece sua leitura, é uma aventura em ambiente medieval com elementos bem interessantes cheia de revelações obscuras.

Mangá: Shingeki no Kyojin (Attack on Titan)

criado por Hajime Isayama


   Sinopse: A história ocorre em um mundo onde a população humana vive dentro de cidades cercadas por enormes muros construídos como defesa para o súbito aparecimento dos Titãs, criaturas humanoides gigantescas que devoram humanos sem motivo aparente. O foco inicial da história é em Eren Yeager, sua irmã adotiva, Mikasa Ackerman, e seu amigo de infância, Armin Arlert, que se tornam militares para combater os Titãs após terem sua cidade destruída e a mãe de Eren ser morta.




   Uma coisa é certa, titãs comem humanos Shingeki é um mangá consideravelmente diferente dos mangás que fizeram muito sucesso nos últimos anos. A história é cheia de titas mistérios e não perde tempo tentando mostrar que em tempos de guerra as pessoas são cheias de fé e persistentes, o mangá mostra características humanas raras nos mangás de hoje em dia, como inveja, covardia, traição, mentira, desespero, falhas de caráter, e por aí vai. O mangá tem um roteiro que faz-se necessária a atenção subliminar, numa rápida lida a história é só aquilo mesmo, titãs gigantes que comem  muitos humanos que vivem dentro de restaurantes muralhas, mas basta uma leitura mais atenciosa e crítica, para se perceber as críticas sociais que o mangá faz para a nossa sociedade, como a divisão de classes, o desinteresse dos poderosos em relação a população que é tratada literalmente como números, o monopólio da informação e as proibições de livros históricos e geográficos que agridem moralmente um povo de conhecimento raso e alienado a escutar as falácias dos governantes que acabam desencorajando os que sonham derrotar os titãs e alcançar a tão sonhada liberdade.

    Isso faz com que grande parte da população se conforme em viver no pequeno espaço das muralhas, considerando qualquer plano de derrotar os titãs como uma utopia. O governo tem seu pilar de força retórica nessa condição, e quando o acidente ocorreu em Shingashina, cinco anos antes da linha do tempo atual da série, mandou 250 mil pessoas para a morte certa, tudo para conter os gastos com alimentação. Vale a pena ressaltar, para quem ainda não leu o mangá, que os titãs surgiram há 100 anos e que antes disso a humanidade vivia sem os titãs mas em guerras por territórios e etnias, logo nos primeiros capítulos vemos Armin pegando um livro de geografia escondido e lendo com Eren, ambos dizem que o que estavam fazendo era ilegal, ou seja; qualquer livro que aborde o mundo antes do surgimento dos titãs é considerado proibido pelo governo, fazendo o povo viver historicamente preso nos últimos 100 anos. Mais tarde, em capítulos muito depois, é mostrado que o pai de Erwin era um professor que foi morto por teorizar uma possível conspiração do governo para afastar a população de algum fato histórico importante antes desses "100" anos de vivência na muralha.

     O protagonista tem objetivos já vistos em outros mangás, como a necessidade de lutar por um mundo melhor e seu desejo pessoal de matar os titãs, responsáveis pela morte de sua mãe. Porém com o decorrer da história vemos o autor trabalhando a personalidade do protagonista fazendo com que apreciemos o crescimento intelectual dele que passa a sofrer com o peso de sua responsabilidade para o futuro da humanidade ao descobrir um segredo que muda radicalmente sua personalidade na trama. A cada volume lançado nós vamos nos desapegando de heróis tradicionais, e o anti-heroísmo vai se prevalecendo. Deixamos de ver discursos bonitos sobre a paz, para ver uma ponte para a paz criada com muito sangue e violência pelas mãos de Erwin, um dos melhores personagens que eu vi na minha vida de mangás/anime. Um comandante que não hesitará em sujar suas mãos de sangue para descobrir os segredos perversos do governo monarca, responsável diretamente por ocultar informações importantíssimas sobre os titãs, uma atitude cruel que resultou na morte de milhares de soldados sob ordens de Erwin nos seus 5 anos como comandante da tropa exploratória, quase que praticamente um esquadrão de elite suicida que tenta incansavelmente descobrir algo revelante sobre os titãs se aventurando do lado de fora das muralhas.

      A trama não se contém em continuidades de arcos e a cada capítulo vem trazendo mais revelações fazendo-nos ficar apreensivos e fiéis seguidores de teorias, e falando em teorias... existem dezenas delas. Isayama vem fazendo seu papel de autor com excelência e toca Singeki com primor como uma obra contínua de muitos acontecimentos que rumam num mesmo objetivo, e acrescenta mais conteúdo aos personagens sem precisar apelar para arcos fora da trama principal e sem nos deixar enjoados com o desenrolar das intrigas ligadas aos personagens principais. Shingeki no Kyojin é um mangá de críticas a todos os formatos sociais, é possível perceber dezenas de grupos culturais/sociais participando da conspiração do governo, é um mangá harmonioso e uma diversão garantida, vale MUITO a pena a leitura. Para finalizar tenho que dizer que tive de fazer esse texto fora de um formato direto sobre a obra, escolhi assim para respeitar quem ainda não leu, por isso evitei dar Spoiler demais, e por isso o texto ficou distante das últimas revelações da série.

Resenha: Espaço de Experiência, Horizonte de Expectativa.

     Podemos tecer teorias sobre o amanhã, ou um amanhã, mas o princípio formador de tal pensamento possui casualidade sentida no hoje. Koselleck apresenta uma visão que rompeu tudo que eu achava saber sobre história e a interpretação dela, o meu espaço de experiência acaba por absorver informações preciosas que me farão degustar muito melhor, criticamente, obras de autores antigos, pois serei capaz de fazer um exame da época anterior à obra desse autor; sua época contemporânea e seus anseios, se existentes, de um amanhã melhor ou pior. Segundo Koselleck, não podemos construir um ideal de amanhã sem partirmos de experiências vividas hoje, ou de ao menos desfrutarmos de uma Khartasis provocada por uma teoria sobre o amanhã. Uma vez submetidos a essa sensação de domínio de um querer para o futuro, estamos construindo um horizonte de expectativa dentro de um espaço de experiência. 
     
     Leia-se espaço de experiência como uma rica fonte de registros de toda nossa condição atual e de trajetória até aqui que pode nos proporcionar uma base para teorizar nosso amanhã, seja um caminho pessoal para certas realizações ou qualquer outra forma de pesquisa teórica sobre o porvir de um tema social, artístico ou político. Essa teoria do amanhã é o horizonte de expectativa, a projeção de nossa pesquisa, a meta que pode ou não ser conquistada, o fato histórico que pode ou não ser alterado, o resultado positivo ou negativo das nossas apostas teóricas. Aparentemente o conceito soa óbvio para mentes mais objetivas, mas quando se dedica reflexão para se apropriar de um texto de concepção subentendida e de linguagem analógica, esse conceito se torna uma ponte muito interessante para sairmos do texto em si e examinarmos a vida do autor de tal texto e suas outras obras. Um exemplo muito comum seria Karl Marx e seu Manifesto Comunista, até quem não compartilha dos ideais marxistas sabe o papel fundamental de Marx para se entender a contemporaneidade que o autor fala e notar a importância de sua obra para muitos conceitos e contextos sociais.

     No meu primeiro contato com os termos usados por Koselleck, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi o que me veio à cabeça, a dinâmica da narrativa de Machado de Assis mostra-nos uma história interessante sobre horizonte de expectativa que abraça um futuro provável explicado sob o espaço de experiência absorvido, mas por acabar não tendo um feito posterior para ser analisado optei por mudar de registro, sem contudo mudar de autor. 
Após um breve namoro com Memórias Póstumas, me voltei à importância de narrar uma situação de pensamento de atualidade com interferência da época contemporânea a do autor, e decidi “analisar” as crônicas escritas por Machado de Assis, chamadas de “Bons dias” uma das muitas que escreveu durante sua carreira. Em especial há de se ter uma ótica atenciosa para as que foram escritas no mês de Maio de 1888, compostas por críticas aos efeitos do fim da escravidão, publicações que fizera no jornal Gazeta. Por ter vivido durante o período lamentável de preconceito e humilhação de toda a comunidade negra, Machado foi um duro crítico dos senhores que continuaram a afligir escravidão aos escravos que não souberam da lei, e também da repatriação, tendenciosa e criminosa, daqueles que não sabiam o que fazer com sua liberdade. O espaço de experiência do autor é visível durante suas críticas onde explícita o que sempre pensou sobre a escravidão, com boas provas de ter seu pensamento vinculado à Ética das Virtudes Aristótelica, que eu falarei mais adiante.

     De certo Machado foi muito cético em seu pessimismo, pareceria até preconceituoso para o momento descrever os acontecimentos daquela forma, mas os discursos que predominavam pelos corredores dos lugares que frequentava faziam-no certo de que o preconceito e a ganância retardariam a tão sonhada igualdade. Machado de Assis cita Aristóteles para elucidar sua posição quanto à relação entre o governo e o povo naqueles dias, e por tal visão; consigo entender que ele tenha criticado todos que passaram a se sentir bons da noite para o dia apenas por libertarem seus escravos, sendo que só estavam fazendo isso devido à lei, não por possuírem tal desejo, nem sequer entenderem como o mesmo era bom. A Ética das Virtudes de Aristóteles trata do ponto inicial das ações que resultarão em certa atitude, um homem virtuoso é voluntário no nascimento da vontade de suas ações, pois é natural tomá-las. Define a virtude como um traço de caráter manifestado nas atividades mais simples e corriqueiras do homem, algo que é colocado em prática de forma ”natural” sem ensaios prévios de uma ação ou fala, onde é possível entender a oposição dela em relação a manifestações ocasionais de outras virtudes, sendo um agir que é emanado de um caráter firme, não de um pensamento ocasional.      

     Com conhecimento sobre tal ética, Machado de Assis não conseguiria ficar tão feliz quanto seus contemporâneos, pois imaginava um futuro próximo desanimador para a população negra, e uma nova onda de hipocrisia geral entre as classes dominantes. A abolição foi um bem inestimável para a época, e para todo ser humano que possuísse uma alma, mas o espaço de experiência de Machado ecoava tão forte em seus anseios para o futuro, que mesmo encaixado numa força que supostamente empurrava todos para um futuro de igualdades, pôde imaginar pequenas falhas que acompanhariam o povo brasileiro pelos anos que viriam. Sem dúvidas o conceito de presente/futuro de Koselleck é uma ferramenta de incrível usabilidade no âmbito das pesquisas literárias sem se restringir a elas, é claro. 

     "O aparato conceitual desenvolvido por Koselleck foi incorporado pela historiografia como aquilo que de mais eficaz se produziu até hoje para operacionalizar uma visão historiográfica do tempo. Recomenda-se a leitura dos livros de Koselleck, particularmente 'Futuro Passado', já traduzido para o português." ( José D'assunção Barros. O Sistema Conceitual de Koselleck, Rio de Janeiro 2011. )

Bibliografia:
Texto-fonte: Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994. 
Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 05/04/1888 a 29/08/1889. 

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006 [original: 1979]

BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 5: Acordes Historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.


Nostalgia da Luz (2010)

dirigido por Patrício Guzmán
Sinopse: No deserto de Atacama, astrônomos de todo o mundo se reúnem para observar as estrelas. Nessa região do Chile, a três mil metros de altitude, o calor do sol mantém intactos restos humanos. Ao mesmo tempo em que os astrônomos pesquisam as galáxias em busca de vida extraterrestre, mulheres procuram seus parentes na terra do deserto.

Trailer



A poesia torna a existência humana suportável e permite a reflexão sobre os diversos assuntos morais, mas quando pensamos no tempo, quando pensamos em mudanças, até aonde podemos nos permitir enxergar? O notebook que uso neste momento para escrever levou décadas para ser projetado, no entanto a minha arrogância faz com que eu jamais pare para pensar que em minhas mãos está um investimento de tempo e conhecimento, porque a história dele importa menos que sua funcionalidade operacional. Nostalgia da Luz aborda essa ignorância quase automática do ser humano em se importar menos com o ontem e mais com o agora, e com uma narrativa muito interessante apresenta traços de confrontos históricos num mesmo lugar, que sob diferentes óticas reflexivas, pode soar moderno a uns, antigo a outros e até atormentador para muitos.

Com um roteiro coerente e objetivo, o filme se passa no deserto do Atacama, no Chile, um dos lugares mais secos do planeta. Astrônomos usam o lugar pois o mesmo é favorável a observação técnica, devido a sua posição geográfica, enquanto Arqueólogos exploram o lugar devido aos vestígios dos povos do passado, e no meio dessas duas vertentes de extrema atualidade e extremo antiguidade, um grupo de mulheres mantêm viva uma busca pelos corpos de seus entes mortos durante uma ditadura, a qual o país, e seu povo, parecem ter esquecido totalmente. Durante a ditadura de Pinochet muitas pessoas foram enterradas ou arremessadas do ar na imensidão do deserto, e até hoje é possível encontrar restos mortais, uma amarga herança para os parentes das vítimas, vozes que sozinhas carregam os gritos que não puderam ser ouvidos, e que hoje são ignorados. Ver o Atacama como um simples deserto, um campo de observação astronômica, um parque arqueológico ou o cenário restante de uma ditadura, só é possível através do estudo sobre o deserto, do contrário o Atacama seria um simples deserto vazio, uma parte funcional dentro de uma existência que cumpre sua função, exatamente como eu ao ignorar a história do meu notebook por entender sua funcionalidade. 

Sob esta perspectiva, podemos entender como para alguns as estrelas importam mais que os sítios arqueológicos, pois estes já se foram e as estrelas constituem um estudo moderno, e como para outros os vestígios dos corpos e da ditadura pouco importam, pois esta já se foi. Olhar para o presente tendo a profundidade historiográfica necessária para cobrir todos os fatos de algo, nos faz enxergar a totalidade do caminho percorrido que fez esse algo estar aqui hoje, de tal forma, de tal jeito, e em tal lugar.

Resenha: Historiografia, A História da História

Hoje posso desenvolver um livro sobre a história da minha cidade porque tenho conhecimento sobre os métodos de pesquisa e registros necessários para elaborar uma obra que evidencie tal trajetória histórica, mas quando foi que de fato o ser humano pensou em desenvolver uma forma de pesquisar o passado, ou de deixar registros para as gerações posteriores? A primeira ação de algo próximo à História data de milênios atrás e possui uma grande distância do conceito de história que conhecemos hoje. Evidências fragmentadas e imprecisas mostram que não havia uma preocupação “imediata” para os daquele presente de se analisar, preservar e/ou reproduzir tais registros. Tal coisa é abandonada por esses mesmos povos antigos, que passam a dar certa importância ao tempo passado, desenvolvendo anais e listas de reis. Porém só mais tarde teríamos o nascimento da história em sua forma mais próxima de como a conhecemos hoje.

           A ruptura da limitação de conservação histórica através de anais, crônicas e listas de reis, surge através dos gregos. O contato indireto grego com os povos do Oriente Antigo Próximo causou inicialmente uma ruptura na própria conservação de história grega, restringida aos épicos reproduzidos de forma oral, os gregos passaram a registrá-los em escrita, desenvolvendo aparentemente de forma experimental, num primeiro momento, sua historiografia. Eles exploraram o passado em diferentes gêneros de escrita, mas é somente no século V que encontramos pela primeira vez a palavra história, época em que Heródoto desenvolveu suas obras que lhe renderiam a alcunha de “Pai da história”. Heródoto pesquisou o passado usando relatos e depoimentos colhidos através de viagens, sua elaboração inclusiva dos fatos, buscava abranger toda informação disponível para fazer com que sua geração entendesse os eventos anteriores a ela. Tucídides, um sucessor de Heródoto no que se diz respeito à pesquisa de relatos, elaborava sua obra como uma aquisição para sempre. Alguns investigadores consideram que o estudo das causas de Tucídides era ainda pouco elaborado e limitava-se a assinalar os sentimentos profundos das populações.

            A historiografia grega tornou-se tão significante que viria a influenciar os métodos romanos, o nascimento dessa influência é visível nas obras de Políbio que trazia muito de Heródoto e Tucídides em seus métodos, mas que tinha ambições maiores para a conclusão de sua pesquisa, pois almejava abranger uma grande história de “tudo”, como Éforo havia tentado, mas sem repartir em partes distintas como este havia feito. Esses três historiadores foram os responsáveis por uma ruptura do que se entendia por preservação de passado, seus métodos de se entender o passado e registrá-lo em escrita para que fosse repassado para todos, foi fundamental para toda a geração de historiadores posteriores. Porém o nascimento da historiografia romana foi mais lento que o da grega, narrativas em prosa marcavam tentativas de se falar da história de Roma.

              Partindo da premissa de enxergar Políbio como o historiador responsável pela inserção direta do “método grego” na forma prematura da historiografia romana, teremos de enaltecer Fábio Pictor como principal influência dos historiadores romanos nesse nascimento limitado, onde a xenofobia viria a gerar resistência na geração contemporânea de tal nascimento. Um exemplo claro disto, é Catão, que utilizou latim em sua obra como um ato de protesto contra as influências gregas. Há diferenças nessas duas historiografias, embora seja possível enxergar mais semelhanças. O “estilo” grego era sofisticado e tinha a tendência de ter seus autores relatando os métodos que estariam utilizando ao longo da obra, além de defenderem a própria importância dela, além do amplo domínio de gêneros. Os romanos aparentaram ter pouco interesse em investir tempo em pesquisas sobre seu passado, e tinham arsenal bem menor de gêneros e subgêneros de se narrar história, consideravam certas narrativas mais atraentes do que outras, não valorizando-as sob a perspectiva de um valor que não fosse o de uma exaltação dos feitos da cidade, ou para a cidade. Porém cabe aos romanos o mérito da criação de uma narrativa cumulativa de eventos mundiais.

         A historiografia de uma forma geral após alcançar certo tempo de existência, se tornou por um curto tempo um ramo da literatura, e as pesquisas acabaram por serem ofuscadas pela persuasão, ou resumidas em relatos sobre feitos de guerra. Felizmente o método de registro histórico sobreviveu tornando-se uma ferramenta para as gerações posteriores entenderem as que vieram antes, tornando possível estudarmos o pensamento e comportamento humano através dos tempos.

Referência bibliográfica:
WOOLF, Daniel. Fundações. In: Uma história global da história. Tradução Caesar Souza. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2014, pp. 46-95.

Resenha: Mímesis em Platão e Aristóteles

     A Mímesis, em grego imitação ou representação, é um grande tema da Filosofia. Basta apenas uma rápida procura na internet para encontrarmos diversos artigos sobre ela, desde simples referências até teses de mestrado ou doutorado. Aristóteles e Platão mostraram modelos de mímesis em uma época em que os mitos prevaleciam nas artes, Platão faz duras críticas aos poetas e artistas, limitando-os a meros imitadores daquilo que já era cópia e distante da ideia, enquanto Aristóteles mais tarde estabelece um conjunto de regras para se fazer arte, defendendo-a como algo essencial do ser humano para o ser humano.


     Platão a descreve como a imitação das formas verdadeiras, que só existem no mundo das ideias, para Platão até mesmo a poesia afasta as pessoas da verdade, empobrecendo a mente crítica com discursos irreais onde as qualidades eram dadas a figuras divinas ou heróicas. A arte, se limitada no amor ao belo; pode ser proveitosa para a mente sã, uma vez que se considere que para Platão; conhecer a verdade era ser capaz de decifrar a relação entre a essência e a aparência, entre a ideia e a imagem. Platão ainda defendia que a forma de falar e pensar da filosofia eram os únicos capazes de ultrapassar a mera eloquência, se deixando contaminar por um saber racional. Seu mito da caverna aborda a fragilidade da mente ao aceitar meras sombras como verdade, e como reverter este processo pode ser demorado. Sua filosofia dos graus do ser, também descreve que quanto mais distante da Ideia cristalina, do intelígivel perfeito, menos verdadeira é tal coisa. Segundo Murray, a linguagem mimética, “é usada não apenas na arte da poesia, pintura, música e dança, mas também, por exemplo, na relação entre linguagem e realidade e, entre o mundo material e o que é paradigma eterno” (1996, p. 3). 

     O arquiteto que produz uma mesa tenta colocar no plano físico aquilo que está em sua mente, gerando assim uma cópia imperfeita da Ideia no plano sensível. O pintor que desenha a cama feita pelo arquiteto, produz um Simulacro, uma imitação da cópia já imperfeita, tornando sua obra uma sombra esculpida por luzes distorcidas. Se Platão enxergava os perigos da mímese na formação intelectual dos cidadãos gregos, Aristóteles a enxerga como uma importante característica humana. Ao desenvolver sua visão sobre ela, acaba por praticamente criar todo o conceito de arte, inicialmente referindo-se às diferenças entre a imitação narrada, e apresentada.

     Ele se preocupa em explicitar que tais imitações são capazes de produzir sensações diferentes em que as vê, uma pintura de um jovem casal se amando despertaria ternura e romance, assim como uma imagem de guerra e morte traria medo e comoção, por exemplo. No entanto a mímesis pode provocar reações diferentes da imagem que busca retratar, como por exemplo: um cadáver poderia ser repugnante para muitos, mas uma pintura o retratando, poderia ter um efeito menos repulsivo, e até cômico. Nesse contexto de sensações, Aristóteles fala da kátharsis, o ápice do contato da arte com quem a absorve, capaz de produzir a mesma sensação, independente da classe ou posição social do indíviduo que a vê. A imitação por meio de poesia, pintura, música ou encenação, seria capaz de provocar emoções, mesmo que fosse vísivel para todos que tais atos fossem imitações. A mímesis retratada na Poética de Aristóteles é diferente da mímesis de Platão, mas ambas se mostram importantes para "clarear" as mentes dos cidadãos gregos, para Platão essa iluminação intelectual se daria por meio do desligamento das artes que afastavam as pessoas da Ideia mais perfeita, já para Aristóteles as artes miméticas são essenciais ao cidadão como forma de lazer, descanso, e diversão.


Referências bibliográficas:
MURRAY, Penelope. (Ed.). Plato on Poetry. New York; Melbourne: Cambridge University Press, 1996.


LOMBARDO, G. L’esthétique antique. Paris: Klincksieck, 2011. (collection 50 questions).

Resenha: A Estética de Aristóteles

     A Estética de Aristóteles trata da mousiké seguindo as linhas de Platão em "Paideia", ele demonstra bem a forma como a poesia e a música atingem de formas diferentes as pessoas, separando-as em principal em massas
(que trabalham para suprir suas necessidades) e classes superiores. A mousiké por fim terá sua função dividida em duas partes principais: formar e divertir ao mesmo tempo.

     "Pode-se, com efeito, distinguir ao menos duas espécies de recreação: por um lado, a paidiá, ou seja, o “divertimento” que permite relaxar o corpo e o espírito após as fadigas e as pressões da ascholía – o que se diz em latim o negotium, o “tempo do trabalho”; por outro lado, a diagogé, ou seja, o “lazer cultural”, próprio aos homens que, para além do repouso “fisiológico”, podem gozar da scholé (em latim: otium), o tempo livre de “trabalho” e consagrado à terapia do espírito (Arist., Pol. 8.4, 1338a)."

     A definição de "ser livre" é dita como a oportunidade de dominar seu tempo, Aristóteles defende os aspectos da música sem deixar de mencionar como é importante a mente e a posição do homem que a ouve, os homens que desfrutam dos prazeres intelectuais das coisas mais belas.


     "O homem que se realiza nas competições públicas para procurar o aplauso dos espectadores exerce uma prática necessariamente ignóbil, ao passo que o homem que se volta para as Musas para cultivar a arte como amador demonstra a excelência de seu espírito. Para este amadores, a função pedagógica da mousiké se explicará por um uso prudente dos instrumentos e das melodias."

     Os homens "livres" ou seja; que possuem scholé, são chamados de bons e belos, os kalokagayhói (bons e belos) devem aprender a música em vista de um prazer pessoal e permanecerem afastados de ambições profissionais que não sejam convenientes a seu nível. Durante o restante do texto, é possível perceber que não há desligamento entre a arte e o homem, e que este último, segundo Aristóteles em sua obra Problemas, está sujeito às melancolias e demais sensações que possam ser causadas dentro de um teatro, até mesmo nos homens de exceções, não havendo exceções sequer para homens nobres ou livres.

     Por fim o autor oferece uma minuciosa declaração sobre a kátharsis, deixando claro suas incertas e mais prováveis definições como representando da "pureza" das linguagens que só poluem, e como ela é citada por Aristóteles como uma terapia médica, um remédio que provoca um choque emocional capaz de descarregar ou “purificar" o frenesi orgiástico para dar a agradável leveza de uma "alegria inocente" (ablabés chara).

     "Resta que a leitura paralela das passagens da Política e da Poética nos permite tirar conclusões razoáveis em relação à kátharsis.
Em uma perspectiva sociopsicológica que ultrapassa tanto o formalismo de Górgias quanto o moralismo de Platão, Aristóteles concebe a “purificação” mental e física como um conforto moral e intelectual ao mesmo tempo. Justamente por aí que o prazer da kátharsis se oferece ao público cultivado."

BIBLIOGRAFIA: 
LOMBARDO, G. L’esthétique antique. Paris: Klincksieck, 2011. (collection 50 questions).