domingo, 20 de março de 2016

Nostalgia da Luz (2010)

dirigido por Patrício Guzmán
Sinopse: No deserto de Atacama, astrônomos de todo o mundo se reúnem para observar as estrelas. Nessa região do Chile, a três mil metros de altitude, o calor do sol mantém intactos restos humanos. Ao mesmo tempo em que os astrônomos pesquisam as galáxias em busca de vida extraterrestre, mulheres procuram seus parentes na terra do deserto.

Trailer



A poesia torna a existência humana suportável e permite a reflexão sobre os diversos assuntos morais, mas quando pensamos no tempo, quando pensamos em mudanças, até aonde podemos nos permitir enxergar? O notebook que uso neste momento para escrever levou décadas para ser projetado, no entanto a minha arrogância faz com que eu jamais pare para pensar que em minhas mãos está um investimento de tempo e conhecimento, porque a história dele importa menos que sua funcionalidade operacional. Nostalgia da Luz aborda essa ignorância quase automática do ser humano em se importar menos com o ontem e mais com o agora, e com uma narrativa muito interessante apresenta traços de confrontos históricos num mesmo lugar, que sob diferentes óticas reflexivas, pode soar moderno a uns, antigo a outros e até atormentador para muitos.

Com um roteiro coerente e objetivo, o filme se passa no deserto do Atacama, no Chile, um dos lugares mais secos do planeta. Astrônomos usam o lugar pois o mesmo é favorável a observação técnica, devido a sua posição geográfica, enquanto Arqueólogos exploram o lugar devido aos vestígios dos povos do passado, e no meio dessas duas vertentes de extrema atualidade e extremo antiguidade, um grupo de mulheres mantêm viva uma busca pelos corpos de seus entes mortos durante uma ditadura, a qual o país, e seu povo, parecem ter esquecido totalmente. Durante a ditadura de Pinochet muitas pessoas foram enterradas ou arremessadas do ar na imensidão do deserto, e até hoje é possível encontrar restos mortais, uma amarga herança para os parentes das vítimas, vozes que sozinhas carregam os gritos que não puderam ser ouvidos, e que hoje são ignorados. Ver o Atacama como um simples deserto, um campo de observação astronômica, um parque arqueológico ou o cenário restante de uma ditadura, só é possível através do estudo sobre o deserto, do contrário o Atacama seria um simples deserto vazio, uma parte funcional dentro de uma existência que cumpre sua função, exatamente como eu ao ignorar a história do meu notebook por entender sua funcionalidade. 

Sob esta perspectiva, podemos entender como para alguns as estrelas importam mais que os sítios arqueológicos, pois estes já se foram e as estrelas constituem um estudo moderno, e como para outros os vestígios dos corpos e da ditadura pouco importam, pois esta já se foi. Olhar para o presente tendo a profundidade historiográfica necessária para cobrir todos os fatos de algo, nos faz enxergar a totalidade do caminho percorrido que fez esse algo estar aqui hoje, de tal forma, de tal jeito, e em tal lugar.

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