domingo, 20 de março de 2016

Resenha: Historiografia, A História da História

Hoje posso desenvolver um livro sobre a história da minha cidade porque tenho conhecimento sobre os métodos de pesquisa e registros necessários para elaborar uma obra que evidencie tal trajetória histórica, mas quando foi que de fato o ser humano pensou em desenvolver uma forma de pesquisar o passado, ou de deixar registros para as gerações posteriores? A primeira ação de algo próximo à História data de milênios atrás e possui uma grande distância do conceito de história que conhecemos hoje. Evidências fragmentadas e imprecisas mostram que não havia uma preocupação “imediata” para os daquele presente de se analisar, preservar e/ou reproduzir tais registros. Tal coisa é abandonada por esses mesmos povos antigos, que passam a dar certa importância ao tempo passado, desenvolvendo anais e listas de reis. Porém só mais tarde teríamos o nascimento da história em sua forma mais próxima de como a conhecemos hoje.

           A ruptura da limitação de conservação histórica através de anais, crônicas e listas de reis, surge através dos gregos. O contato indireto grego com os povos do Oriente Antigo Próximo causou inicialmente uma ruptura na própria conservação de história grega, restringida aos épicos reproduzidos de forma oral, os gregos passaram a registrá-los em escrita, desenvolvendo aparentemente de forma experimental, num primeiro momento, sua historiografia. Eles exploraram o passado em diferentes gêneros de escrita, mas é somente no século V que encontramos pela primeira vez a palavra história, época em que Heródoto desenvolveu suas obras que lhe renderiam a alcunha de “Pai da história”. Heródoto pesquisou o passado usando relatos e depoimentos colhidos através de viagens, sua elaboração inclusiva dos fatos, buscava abranger toda informação disponível para fazer com que sua geração entendesse os eventos anteriores a ela. Tucídides, um sucessor de Heródoto no que se diz respeito à pesquisa de relatos, elaborava sua obra como uma aquisição para sempre. Alguns investigadores consideram que o estudo das causas de Tucídides era ainda pouco elaborado e limitava-se a assinalar os sentimentos profundos das populações.

            A historiografia grega tornou-se tão significante que viria a influenciar os métodos romanos, o nascimento dessa influência é visível nas obras de Políbio que trazia muito de Heródoto e Tucídides em seus métodos, mas que tinha ambições maiores para a conclusão de sua pesquisa, pois almejava abranger uma grande história de “tudo”, como Éforo havia tentado, mas sem repartir em partes distintas como este havia feito. Esses três historiadores foram os responsáveis por uma ruptura do que se entendia por preservação de passado, seus métodos de se entender o passado e registrá-lo em escrita para que fosse repassado para todos, foi fundamental para toda a geração de historiadores posteriores. Porém o nascimento da historiografia romana foi mais lento que o da grega, narrativas em prosa marcavam tentativas de se falar da história de Roma.

              Partindo da premissa de enxergar Políbio como o historiador responsável pela inserção direta do “método grego” na forma prematura da historiografia romana, teremos de enaltecer Fábio Pictor como principal influência dos historiadores romanos nesse nascimento limitado, onde a xenofobia viria a gerar resistência na geração contemporânea de tal nascimento. Um exemplo claro disto, é Catão, que utilizou latim em sua obra como um ato de protesto contra as influências gregas. Há diferenças nessas duas historiografias, embora seja possível enxergar mais semelhanças. O “estilo” grego era sofisticado e tinha a tendência de ter seus autores relatando os métodos que estariam utilizando ao longo da obra, além de defenderem a própria importância dela, além do amplo domínio de gêneros. Os romanos aparentaram ter pouco interesse em investir tempo em pesquisas sobre seu passado, e tinham arsenal bem menor de gêneros e subgêneros de se narrar história, consideravam certas narrativas mais atraentes do que outras, não valorizando-as sob a perspectiva de um valor que não fosse o de uma exaltação dos feitos da cidade, ou para a cidade. Porém cabe aos romanos o mérito da criação de uma narrativa cumulativa de eventos mundiais.

         A historiografia de uma forma geral após alcançar certo tempo de existência, se tornou por um curto tempo um ramo da literatura, e as pesquisas acabaram por serem ofuscadas pela persuasão, ou resumidas em relatos sobre feitos de guerra. Felizmente o método de registro histórico sobreviveu tornando-se uma ferramenta para as gerações posteriores entenderem as que vieram antes, tornando possível estudarmos o pensamento e comportamento humano através dos tempos.

Referência bibliográfica:
WOOLF, Daniel. Fundações. In: Uma história global da história. Tradução Caesar Souza. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2014, pp. 46-95.

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