Podemos tecer teorias sobre o amanhã, ou um amanhã, mas o princípio formador de tal pensamento possui casualidade sentida no hoje. Koselleck apresenta uma visão que rompeu tudo que eu achava saber sobre história e a interpretação dela, o meu espaço de experiência acaba por absorver informações preciosas que me farão degustar muito melhor, criticamente, obras de autores antigos, pois serei capaz de fazer um exame da época anterior à obra desse autor; sua época contemporânea e seus anseios, se existentes, de um amanhã melhor ou pior. Segundo Koselleck, não podemos construir um ideal de amanhã sem partirmos de experiências vividas hoje, ou de ao menos desfrutarmos de uma Khartasis provocada por uma teoria sobre o amanhã. Uma vez submetidos a essa sensação de domínio de um querer para o futuro, estamos construindo um horizonte de expectativa dentro de um espaço de experiência.
Leia-se espaço de experiência como uma rica fonte de registros de toda nossa condição atual e de trajetória até aqui que pode nos proporcionar uma base para teorizar nosso amanhã, seja um caminho pessoal para certas realizações ou qualquer outra forma de pesquisa teórica sobre o porvir de um tema social, artístico ou político. Essa teoria do amanhã é o horizonte de expectativa, a projeção de nossa pesquisa, a meta que pode ou não ser conquistada, o fato histórico que pode ou não ser alterado, o resultado positivo ou negativo das nossas apostas teóricas. Aparentemente o conceito soa óbvio para mentes mais objetivas, mas quando se dedica reflexão para se apropriar de um texto de concepção subentendida e de linguagem analógica, esse conceito se torna uma ponte muito interessante para sairmos do texto em si e examinarmos a vida do autor de tal texto e suas outras obras. Um exemplo muito comum seria Karl Marx e seu Manifesto Comunista, até quem não compartilha dos ideais marxistas sabe o papel fundamental de Marx para se entender a contemporaneidade que o autor fala e notar a importância de sua obra para muitos conceitos e contextos sociais.
No meu primeiro contato com os termos usados por Koselleck, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi o que me veio à cabeça, a dinâmica da narrativa de Machado de Assis mostra-nos uma história interessante sobre horizonte de expectativa que abraça um futuro provável explicado sob o espaço de experiência absorvido, mas por acabar não tendo um feito posterior para ser analisado optei por mudar de registro, sem contudo mudar de autor.
Após um breve namoro com Memórias Póstumas, me voltei à importância de narrar uma situação de pensamento de atualidade com interferência da época contemporânea a do autor, e decidi “analisar” as crônicas escritas por Machado de Assis, chamadas de “Bons dias” uma das muitas que escreveu durante sua carreira. Em especial há de se ter uma ótica atenciosa para as que foram escritas no mês de Maio de 1888, compostas por críticas aos efeitos do fim da escravidão, publicações que fizera no jornal Gazeta. Por ter vivido durante o período lamentável de preconceito e humilhação de toda a comunidade negra, Machado foi um duro crítico dos senhores que continuaram a afligir escravidão aos escravos que não souberam da lei, e também da repatriação, tendenciosa e criminosa, daqueles que não sabiam o que fazer com sua liberdade. O espaço de experiência do autor é visível durante suas críticas onde explícita o que sempre pensou sobre a escravidão, com boas provas de ter seu pensamento vinculado à Ética das Virtudes Aristótelica, que eu falarei mais adiante.
De certo Machado foi muito cético em seu pessimismo, pareceria até preconceituoso para o momento descrever os acontecimentos daquela forma, mas os discursos que predominavam pelos corredores dos lugares que frequentava faziam-no certo de que o preconceito e a ganância retardariam a tão sonhada igualdade. Machado de Assis cita Aristóteles para elucidar sua posição quanto à relação entre o governo e o povo naqueles dias, e por tal visão; consigo entender que ele tenha criticado todos que passaram a se sentir bons da noite para o dia apenas por libertarem seus escravos, sendo que só estavam fazendo isso devido à lei, não por possuírem tal desejo, nem sequer entenderem como o mesmo era bom. A Ética das Virtudes de Aristóteles trata do ponto inicial das ações que resultarão em certa atitude, um homem virtuoso é voluntário no nascimento da vontade de suas ações, pois é natural tomá-las. Define a virtude como um traço de caráter manifestado nas atividades mais simples e corriqueiras do homem, algo que é colocado em prática de forma ”natural” sem ensaios prévios de uma ação ou fala, onde é possível entender a oposição dela em relação a manifestações ocasionais de outras virtudes, sendo um agir que é emanado de um caráter firme, não de um pensamento ocasional.
Com conhecimento sobre tal ética, Machado de Assis não conseguiria ficar tão feliz quanto seus contemporâneos, pois imaginava um futuro próximo desanimador para a população negra, e uma nova onda de hipocrisia geral entre as classes dominantes. A abolição foi um bem inestimável para a época, e para todo ser humano que possuísse uma alma, mas o espaço de experiência de Machado ecoava tão forte em seus anseios para o futuro, que mesmo encaixado numa força que supostamente empurrava todos para um futuro de igualdades, pôde imaginar pequenas falhas que acompanhariam o povo brasileiro pelos anos que viriam. Sem dúvidas o conceito de presente/futuro de Koselleck é uma ferramenta de incrível usabilidade no âmbito das pesquisas literárias sem se restringir a elas, é claro.
"O aparato conceitual desenvolvido por Koselleck foi incorporado pela historiografia como aquilo que de mais eficaz se produziu até hoje para operacionalizar uma visão historiográfica do tempo. Recomenda-se a leitura dos livros de Koselleck, particularmente 'Futuro Passado', já traduzido para o português." ( José D'assunção Barros. O Sistema Conceitual de Koselleck, Rio de Janeiro 2011. )
Bibliografia:
Texto-fonte: Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994.
Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, de 05/04/1888 a 29/08/1889.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006 [original: 1979]
BARROS, José D'Assunção. Teoria da História - volume 5: Acordes Historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.
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