domingo, 20 de março de 2016

Resenha: Mímesis em Platão e Aristóteles

     A Mímesis, em grego imitação ou representação, é um grande tema da Filosofia. Basta apenas uma rápida procura na internet para encontrarmos diversos artigos sobre ela, desde simples referências até teses de mestrado ou doutorado. Aristóteles e Platão mostraram modelos de mímesis em uma época em que os mitos prevaleciam nas artes, Platão faz duras críticas aos poetas e artistas, limitando-os a meros imitadores daquilo que já era cópia e distante da ideia, enquanto Aristóteles mais tarde estabelece um conjunto de regras para se fazer arte, defendendo-a como algo essencial do ser humano para o ser humano.


     Platão a descreve como a imitação das formas verdadeiras, que só existem no mundo das ideias, para Platão até mesmo a poesia afasta as pessoas da verdade, empobrecendo a mente crítica com discursos irreais onde as qualidades eram dadas a figuras divinas ou heróicas. A arte, se limitada no amor ao belo; pode ser proveitosa para a mente sã, uma vez que se considere que para Platão; conhecer a verdade era ser capaz de decifrar a relação entre a essência e a aparência, entre a ideia e a imagem. Platão ainda defendia que a forma de falar e pensar da filosofia eram os únicos capazes de ultrapassar a mera eloquência, se deixando contaminar por um saber racional. Seu mito da caverna aborda a fragilidade da mente ao aceitar meras sombras como verdade, e como reverter este processo pode ser demorado. Sua filosofia dos graus do ser, também descreve que quanto mais distante da Ideia cristalina, do intelígivel perfeito, menos verdadeira é tal coisa. Segundo Murray, a linguagem mimética, “é usada não apenas na arte da poesia, pintura, música e dança, mas também, por exemplo, na relação entre linguagem e realidade e, entre o mundo material e o que é paradigma eterno” (1996, p. 3). 

     O arquiteto que produz uma mesa tenta colocar no plano físico aquilo que está em sua mente, gerando assim uma cópia imperfeita da Ideia no plano sensível. O pintor que desenha a cama feita pelo arquiteto, produz um Simulacro, uma imitação da cópia já imperfeita, tornando sua obra uma sombra esculpida por luzes distorcidas. Se Platão enxergava os perigos da mímese na formação intelectual dos cidadãos gregos, Aristóteles a enxerga como uma importante característica humana. Ao desenvolver sua visão sobre ela, acaba por praticamente criar todo o conceito de arte, inicialmente referindo-se às diferenças entre a imitação narrada, e apresentada.

     Ele se preocupa em explicitar que tais imitações são capazes de produzir sensações diferentes em que as vê, uma pintura de um jovem casal se amando despertaria ternura e romance, assim como uma imagem de guerra e morte traria medo e comoção, por exemplo. No entanto a mímesis pode provocar reações diferentes da imagem que busca retratar, como por exemplo: um cadáver poderia ser repugnante para muitos, mas uma pintura o retratando, poderia ter um efeito menos repulsivo, e até cômico. Nesse contexto de sensações, Aristóteles fala da kátharsis, o ápice do contato da arte com quem a absorve, capaz de produzir a mesma sensação, independente da classe ou posição social do indíviduo que a vê. A imitação por meio de poesia, pintura, música ou encenação, seria capaz de provocar emoções, mesmo que fosse vísivel para todos que tais atos fossem imitações. A mímesis retratada na Poética de Aristóteles é diferente da mímesis de Platão, mas ambas se mostram importantes para "clarear" as mentes dos cidadãos gregos, para Platão essa iluminação intelectual se daria por meio do desligamento das artes que afastavam as pessoas da Ideia mais perfeita, já para Aristóteles as artes miméticas são essenciais ao cidadão como forma de lazer, descanso, e diversão.


Referências bibliográficas:
MURRAY, Penelope. (Ed.). Plato on Poetry. New York; Melbourne: Cambridge University Press, 1996.


LOMBARDO, G. L’esthétique antique. Paris: Klincksieck, 2011. (collection 50 questions).

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